Centro de Goiânia: arte, memória e a resistência contra o abandono

 

Centro de Goiânia: arte, memória e a resistência contra o abandono


Rodrigo Zani Por Rodrigo Zani em 20/08/2025 - 07:57

Antiga estação ferroviária: monumento em Art Déco (Secom Goiânia)

Goiânia nasceu do sonho modernizador de Pedro Ludovico Teixeira, médico e político visionário nomeado interventor federal por Getúlio Vargas durante o Estado Novo. Seu plano era ambicioso: transferir a capital de Goiás da antiga cidade de Goiás (então chamada de Vila Boa) para uma nova região mais propícia ao desenvolvimento econômico, social e político — livre do domínio das oligarquias locais que controlavam o interior goiano há décadas.

Foi nos arredores de Campinas (hoje um bairro da capital) que Ludovico lançou os alicerces do que viria a ser Goiânia, inaugurada oficialmente em 1933. Carros de bois, operários e engenheiros deram forma à nova capital, que já nasceu com vocação de modernidade.

O projeto urbanístico original foi concebido pelo arquiteto e urbanista Attílio Correia Lima, então influenciado pelas ideias modernistas e pelo conceito das cidades-jardins. Ele desenhou um plano que privilegiava a organização funcional dos espaços públicos, a fluidez do trânsito e a convivência harmoniosa entre áreas residenciais, administrativas e comerciais. No centro desse projeto estava o coração urbano da cidade, planejado para abrigar os principais edifícios administrativos, as primeiras moradias, praças, igrejas e o comércio vibrante de uma capital pensada com os pés no futuro.

Hoje, o centro de Goiânia abriga um dos maiores acervos de arquitetura Art Déco do planeta. Esse estilo, que expressa a estética moderna e geométrica do início do século XX, está presente em prédios públicos, antigos comércios e residências. É uma herança arquitetônica rara e valiosa, da qual a cidade deveria se orgulhar. Mas não é isso que se vê ao caminhar por suas ruas.

Boa parte desse patrimônio encontra-se em ruínas, abandonado pela gestão pública e esquecido por parte da sociedade. Fachadas históricas estão encobertas por placas comerciais. Praças estão malcuidadas, sujas, e com infraestrutura deteriorada. Becos e calçadas que já foram palco de histórias de pioneirismo hoje são marcados pela vulnerabilidade social. Homens e mulheres em situação de rua dividem espaço com o descaso — e nos lembram que restaurar o centro passa, antes de tudo, por acolher essas pessoas com dignidade e políticas públicas eficazes.

O poder público falhou, sim, mas não está sozinho nessa omissão. A sociedade civil, universidades, empresários e entidades culturais também têm responsabilidade na preservação do que nos resta da memória urbana. O exemplo do Jóquei Clube de Goiás, demolido para dar lugar a um estacionamento, é um alerta: quando o interesse imediato se sobrepõe ao valor histórico, todos perdem.

A Rua do Lazer é outro símbolo desse descaso — mas também da resistência. Por muito tempo esquecida, ela perdeu vitalidade e estrutura. Porém, mesmo sem apoio institucional, a rua resiste graças à coragem de pequenos empreendedores que vêm reocupando o espaço com bares temáticos, botecos estilosos e iniciativas culturais. Com criatividade e esforço próprio, eles atraem um novo público e devolvem à região parte de sua alma. É um exemplo claro de como a cidade pode se reinventar por meio da cultura e da ocupação urbana consciente.

Entre os monumentos vivos que resistem no centro está o Teatro Goiânia, uma das mais belas joias da arquitetura Art Déco brasileira. Inaugurado em 1942, o prédio combina formas geométricas, linhas elegantes e funcionalidade arquitetônica — um verdadeiro símbolo da estética moderna da época. Mais do que um espaço físico, o Teatro Goiânia é um dos principais palcos da vida cultural da cidade, com concertos, peças, festivais, encontros literários e apresentações de dança. Sua programação e importância histórica o tornam referência nacional em patrimônio cultural preservado.

Outro ponto de destaque é o Phaternon Center, um dos edifícios mais emblemáticos da verticalização da capital. Seu projeto arquitetônico moderno se impôs na paisagem do centro e tornou-se parte do skyline goianiense. Dentro do Phaternon, está o Espaço Cultural Octo Marques, mantido pela Secretaria Estadual de Cultura de Goiás, que oferece exposições de arte, mostras fotográficas, lançamentos de livros e atividades educativas. O Octo Marques se consolidou como um dos mais importantes espaços de difusão artística e de diálogo entre o passado e o presente no coração da cidade.

Ali perto, o Instituto Federal de Goiás (IFG) se destaca como polo de conhecimento, cultura e inovação. A presença do IFG no centro representa uma força viva de formação educacional e transformação social, com cursos técnicos, projetos culturais e ações comunitárias que aproximam jovens, professores e a cidade. A instituição também colabora com a dinamização da região central, gerando circulação, pesquisa e iniciativas ligadas à valorização do patrimônio urbano.

Outro símbolo importante é a Igreja Matriz de Goiânia, também conhecida como Catedral Metropolitana. Com sua fachada neoclássica e interior acolhedor, ela representa não apenas um centro de fé, mas também um marco histórico e espiritual para a cidade. Mais do que templo religioso, é espaço de celebração, acolhimento e memória — um lugar onde fé e cultura se encontram e dialogam com o presente.

Dois marcos fundamentais da vida cotidiana e histórica de Goiânia também resistem no centro: o Mercado Central e o Mercado da 74. O Mercado Central, com sua estrutura em concreto aparente, amplos vãos e identidade arquitetônica própria, é mais que um ponto comercial — é um reduto de sabores, cheiros e histórias. Lá se encontram desde temperos típicos a artesanatos regionais, em uma atmosfera que mistura tradição e afeto.

Já o Mercado da 74, inaugurado em 1950 e tombado como patrimônio histórico, guarda um charme único. Sua arquitetura funcionalista e a disposição interna dos boxes preservam a memória de uma Goiânia em transformação. Ambos os mercados são espaços vivos de cultura popular, gastronomia regional e convivência comunitária. São pontos de resistência e memória afetiva que, revitalizados com respeito e planejamento, podem se tornar âncoras de uma nova centralidade urbana.

E como todo bom centro urbano brasileiro, o de Goiânia também se destaca pelos sabores e saberes populares. A região é repleta de gastronomia típica goiana que fazem parte do patrimônio imaterial da cidade. Há também sorveterias artesanais, que mantêm sabores regionais vivos, e livrarias independentes, refúgios culturais que resistem ao tempo e ao avanço do consumo rápido, proporcionando encontros entre leitores, estudantes e intelectuais.

O centro de Goiânia é mais do que um lugar: é o espelho da nossa origem. É a memória concreta de um povo que, aos poucos, parece esquecer de onde veio. Ainda há tempo de salvar o que restou. Mas isso exige mais do que nostalgia — exige compromisso com o presente, por meio de investimentos em cultura, educação, urbanismo, turismo, assistência social e inovação.

Restaurar o centro não se resume a pintar fachadas antigas ou reurbanizar praças. É preciso olhar para as pessoas que ali vivem e circulam todos os dias. Moradores de rua, imigrantes, trabalhadores informais, artistas, comerciantes e estudantes são parte essencial da paisagem humana do centro. Qualquer proposta de revitalização que ignore essas vidas será incompleta. A cidade precisa incluir, acolher e cuidar — porque preservar o centro é também preservar a dignidade.

O resgate do centro de Goiânia é, portanto, um dever coletivo. Não cabe apenas ao poder público, mas também à sociedade civil, às universidades, aos empresários, às comunidades e aos artistas que fazem da cidade um organismo vivo. Esse resgate pode ser a chave para impulsionar uma economia criativa e cultural sólida, sustentável e inovadora — capaz de gerar emprego, identidade e pertencimento. Goiânia e Goiás têm, em seu centro histórico, um celeiro de possibilidades que pode transformar passado em futuro. Que saibamos reconhecê-las antes que seja tarde demais.

Rodrigo Zani

É Secretário de Formação Política da União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar do Brasil - UNICAFES

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

NERÓPOLIS, PORTAL DE TURISMO CULTURAL E GASTRONÔMICO NO CENTRO DE GOIÁS

NERÓPOLIS NO CIRCUITO NACIONAL DOS MEGA SHOWS MUSICAIS COM GRUPO RAÇA NEGRA

Por que ler livros? Para adiar o fim do pensamento, o fim da vida